JULIANA
Jonatam Mendes
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Numa manhã de sábado depois de realizadas as atividades costumeiras dos finais de semana: lavar a roupa da escola, limpar móveis, dar faxina na casa, fazer almoço e lavar louças, sem esquecer-se de resolver as tarefas da escola, que o professor de matemática passou pra turma do 2º ano 21 da Escola Francisco Moura Filho.
Juliana, em sua beleza, alegria e vigor juvenil de uma menina-mulher de 15 anos, sai pelas ruas em sua bicicleta rosa rumo a praia afim de lá contemplar o as aves que vem e vão de uma região para outra em busca de peixes, seus alimentos prediletos.
Após ficar horas e horas à beira-mar, Juliana decide voltar para casa, e como sempre faz dá uma passadinha no abrigo de idosos da cidade, para conversar com alguns velhinhos, algo que a alegra bastante, visto não ter conhecido nenhum avô ou avó, devido morarem longe e as condições não serem suficientes para visitá-los ou trazê-los, ou mesmo por estes já terem falecido. Juliana é uma menina muito tagarela, tudo quer saber, e nos mínimos detalhes, e, nessas perguntações muito tem ouvido e aprendido, histórias interessantes são reveladas a ela, que tudo anota em seu diário cuidadosamente limpo e guardado na cômoda.
Depois de cinco minutos de caminhada a menina chega ao abrigo Jesus Menino, um local, que embora não receba apoio dos governantes, é sempre bem cuidado, dando aos velhinhos que ali são acolhidos, um atendimento bastante satisfatório, tanto que muitos dos velhinhos até dizem que nunca querem sair dali. Embora seja ali um lugar bem acolhedor, onde os idosos são bem cuidados, em termos de carinho, atenção e amor por parte dos funcionários muitos deles voluntários, existem lacunas que todo esse trabalho realizado pelo abrigo, não pode suprir, existem alguns desses velhinhos que vieram parar ali devido situações de abandono, sendo acolhidos pelo abrigo, outros que ali foram deixados pelos filhos ou outros parentes próximos, porém que posteriormente nunca mais receberam sequer uma visita destes, no decorrer de vários anos.
Juliana, sabe muito sobre o abrigo, seus avós paternos mesmo, estão em um lá cidade onde antes moravam seus pais, devido as dificuldades foram obrigados a sair vagando pelo mundo em busca de condições melhores, visto serem um casal com 3 filhos sendo Juliana a do meio e única menina, tendo na época 1 ano e 3 meses, tendo convivido pouco tempo com os avós paternos; seu Carmélio e Dona Anátemis, estes depois da partida dos pais de Juliana: Paulo e Adélia, são postos num abrigo pelo irmão mais velho de Paulo, sob desculpa de não ter tempo e condições de cuidar do casal de velhinhos além desses estarem muito enjoados e birrentos, contrário do que antes fora prometido a Paulo, que nunca abandonaria eles, por serem seus pais, deixando assim Paulo tranqüilo para seguir viagem em busca de uma vida melhor.
No abrigo Lar Menino Jesus vivem cerva de 30 velhinhos com idades entre 60 e 95 anos, homens e mulheres, na sua maioria da classe bem desfavorecida financeiramente, Juliana, já conhece alguns deles, pois desde que chegou nesta cidade a mais ou menos 5 anos, um dos primeiros lugares que visitou foi o abrigo, conhecido por acaso em suas idas e vindas de casa à praia, a partir de então todo final de semana ela passa ali pra conversar com aqueles sorridentes e agradáveis velhinhos e velhinhas.
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Uma das tristezas de Juliana nestes vários anos de amizade com os velhinhos do abrigo Casa dos seus foi o dia do falecimento de seu Otávio a uma semana de fazer 100 anos, sendo este o mais velho dali, também o que há mais tempo estava no abrigo, aproximadamente 40 anos, quase no início do funcionamento do mesmo que ocorrera 2 anos antes, seu Otávio era super alegre e otimista, apesar de todas as dificuldades e doenças nunca perdia a fé e alegria, sempre animando os outros colegas e aos visitantes e funcionários com suas cantigas animadas com seu pandeirinho de couro, as vezes se esquecia das letras das músicas, mas tudo se tornava motivo de graça,brincadeira e alegria, com seu Otávio a tristeza não tinha espaço naquele ambiente.
Depois que Juliana passou a visitar a Casa do Menino Jesus, chegaram sete velhinhos de várias regiões do estado, tendo também alguns já reabilitados e re-acolhidos por suas famílias ou outras boas pessoas que os adotavam.
Embora fosse muito querida por todos aqueles velhinhos por sua contagiante alegria e inteligência a pessoa com a qual Juliana mais passava seu tempo a conversar era dona Cecília, uma velhinha de setenta e um anos que há 18 estava ali devido morte de seu velho marido seu Mario com o qual vivera 35 anos e não tendo deixado nenhum filho, e com a morte de seu marido ficado sobre a tutela de um irmão é acolhida pelo abrigo, por conta dos maus tratos que vinham sofrendo da família onde vivia além de ter seu salário gasto com bobagens ao passo que seus remédios e alimentos necessários não comprados.
Dona Cecília é uma senhora bem alegre corpo franzino, não passando de 55 quilos distribuídos em um metro e setenta de altura, cabelos grisalhos e cacheados, sempre limpos e perfumados, sinônimo de uma vida toda cercada de cuidados por seus pais que nunca lhe deixava faltar nada, algo que se repetiu durante o casamento com seu Mário que tanto a amava e que fazia possíveis e impossíveis só para ver sua florzinha, como ele a chamava carinhosamente só para vê-la sempre cheirosa, bonita e alegre. Com todo esse cuidado recebido de seus pais e seu marido durante maior parte de sua vida, dona Clarisse se acostumou a viver sempre bem arrumada, ela era a rainha do seu Mário, nada fazia além, da suas poucas obrigações do lar, quando a empregada doméstica faltava.
Juliana sempre muito esperta e bisbilhoteira extraia pessoas, sobretudo das idosas, informações que nenhum profissional seja de qual área fosse ou parente desses conseguia tirar, além do sorriso, dons e talentos, até então não descobertos ou revelados. Dona Cecília, por exemplo, sempre contava muitas histórias da sua vida lá onde morava, do que passou na sua família com, os pais e irmãos, também no casamento e como veio parar e como vive no Lar do Menino Jesus, sempre com sua antiga paixão e inseparável gaita que ganhara em um concurso no ginasial após ter feitos um curso de música em sua escola.
Nesse sábado, lindo, início do outono, tempo um pouco frio devido à chuva que ocorrera na noite anterior, muitos dos velhinhos ainda dormiam, dona Cecília, como já sabia da visita da menina Juliana sempre naquele mesmo horário acordou cedo já separara seus pães de queijo preferidos, e que a menina também tanto aprecia.
Tendo comido o primeiro pãozinho ela já ouve os gritos de Juliana à porta do abrigo “acordem meus queridos, a princesinha chegou”, parece que uma estrela veio iluminar esse lugar diz a velhinha alegre pela presença da menina, que já chega dando-lhe um forte abraço e um doce beijo em sua face enrugada, desejando bom dia.
Embora Juliana seja bem jovem muito ela já aprendeu na vida, seja por experiência própria ou nas escutas de histórias de outras pessoas, aprendeu que embora as pessoas mais queridas por ela tenham muitas qualidades e sejam agradáveis e alegres, estas, ainda escondem muitos segredos, histórias, mistérios e fatos, muitos desses, que culminaram no que hoje estão vivendo.
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Dona Cecília sempre confiou muito na esperta Juliana, embora às vezes ela fale pelos cotovelos a velhinha lhe revela muitas confidências na certeza de que a ninguém será revelado, como de fato não o foi nesses anos todos de amizade e conversações, entre as duas amigas. Apesar de já saber muito sobre a vida de Cecília existem algumas coisas que Juliana ainda não sabe sobre a vida da velhinha, exceto algumas informações superficiais obtidas na coordenação do abrigo sobre como ela estava ao ser acolhida, mas nada tão aprofundado, ou pequenos causos relatados pela mesma sobre sua convivência familiar, escola, casamento...também não detalhada, algo que deixava a menina louca de curiosidade, mas que não insistia com a velhinha sob medo dela se zangar e perder tão agradável amizade, esperando que um dia espontaneamente dona Cecília lhe falasse a respeito.
Há esta hora os outros idosos do Lar do Menino Jesus, já tinham acordado e estavam à mesa a tomar o café da manhã, dona Cecília pelo menos aos sábados quase nunca participava desse momento, ora conversando com Juliana, ora tocando nostalgicamente sua velha gaitinha, ao ponto de se esquecer onde está, e até perturbar alguns de seus colegas com sua cantoria matinal. Ali, debaixo de uma goiabeira, a doce velhinha passa a manhã, às vezes o dia inteiro, cantando, tocando, às vezes chorando a lembrar dos tempos felizes de sua vida com seus pais e irmãos, e com seu saudoso e amável marido Mario, e ninguém a perturbava ou a chamava dali, sabendo do quão importante é para dona Cecília aqueles momentos sozinha.
Juliana sempre gostou mais das coisas radicais, surfar, nadar, correr, andar de bicicleta e outros esportes, nunca foram muita adepta de música, sobretudo instrumental ou clássica ou coisas do tipo: teatro, pintura, o único momento em que ela se dedicava um pouco à prática dessas atividades era quando estava com dona Cecília, com a qual até já estava aprendendo os primeiros sons na gaita, esta que ninguém, senão sua dona até então tinha pegado ou tocado, sendo Juliana a primeira privilegiada a experimentar o objeto de maior ciúme e apego daquela velhinha.
Eram nove e meia quando dona Cecília resolve falar um pouco mais de sua vida à menina Juliana, após cantar e tocar sua música predileta e composta por ela mesma profere as primeiras palavras relatando parte de uma das fazes mais significativas da sua vida. “Juliana minha filha sempre confiei muito em você, muito me alegro por ter sua amizade, te considero já como a filha e neta que não tive. {... A senhora não era casada dona Cecília, com seu Mário porque a senhora não teve filhos, era estéril?} Juliana disse isso, por já ter ouvido ou visto algo em suas aulas de biologia, na internet ou na TV.
Não minha filha, não foi nenhum problema genético, não foi nada no meu ou no sistema reprodutivo do Mário não, casamo-nos novos, eu, com 18 e ele com 21 anos, éramos bastante vigorosos e com certeza férteis, poderíamos ter gerado, quantos filhos quiséssemos, seriam lindos e nada lhes faltariam, eu era muito bela, o Mario também, e ele tinha bastante recursos, deixados pelo pai dele como herança e que ele multiplicara com seu trabalho, sempre honesto e produtivo, o Mario sabia conquistar as pessoas, pois era sincero, educado, tratava à todos muito bem, era querido e amado por todos que o conheciam, exceto meu irmão que tinha inveja por ele ser rico e eu ser a mais nova de todos os irmãos.
Juliana vou te contar uma pequena história para que você preste bem atenção, muito você vai aprender com o que vou te contar, se souberes apreender o que quero te transmitir, certamente não terás o futuro que eu tive ficar sozinha, abandonada, dependendo dos cuidados alheios. Minha vida sempre foi muito boa, como você já sabe, cercada, de mimos, amor carinho, e tudo o que eu quisesse, seja dos meus pais, seja do meu velho Mário.
Nunca precisei trabalhar, pois tinha tudo em casa, a melhor roupa, perfumes bons e caros, muitos sapatos, vestidos, freqüentava em todos os bailes, embora fosse uma época bem diferente da de hoje tive vários namorados, lindos, de todos os jeitos louros, ricos, fazendeiros, e até um inglês eu namorei, era desejada por todos os rapazes dos bailes e clubes onde freqüentava por ser muito elegante, bonita e sempre bem arrumada, aparentando também ser rica, desde os treze anos eu já namorava escondido com um visinho meu, e com 15 já freqüentava festas, muitas destas, sozinha sendo trazida para casa pelos amigos ou namorados, meus pais não gostavam, mas eu era teimosa, só fazia o que queria, não quis aprender que
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na vida devemos respeitar limites e normas, mesmo assim, meus pais nunca me castigaram, apenas diziam para que tivesse cuidado para não me perder na vida, causando-lhes vergonha, ou fazer algo do qual depois pudesse me arrepender e talvez não tivesse como mudar, e assim sofresse as conseqüências no futuro.
Gostava muito dos meus pais, e eles muito mais, de mim, nunca me deixaram faltar nada, embora não fossem ricos, me davam do bom e do melhor, coisas que exigi também no meu casamento e o qual o Mario sempre fazia com muito amor e dedicação, contudo embora tudo, tivesse, sempre fui ingrata tanto com meus pais, como com o meu marido, nunca me satisfazia, o que tinha nunca era suficiente, talvez por nunca ter passado por necessidade ou mesmo ter me esforçado para ter as coisas, ao contrário do Mario que tudo o que teve foi a base de muito esforço, por ter perdido os pais muito cedo, assim sendo obrigado a trabalhar desde jovem, não podendo inclusive mais estudar devido condições difíceis de acesso a escola, financeiras e sustentar a casa, embora não tivéssemos filhos, um sonho dele, que nunca se realizou mas uma esposa que sempre queria do bom e do melhor, não importando como deveria ter meus anseios satisfeitos pelo pobre e dedicado marido.
Tive a oportunidade de conhecer meus avós paternos e maternos, porém não soube valorizá-los, pelo contrário, tinha nojo deles, eram velhos, incomodavam muito, toda hora me chamavam para ajudá-los em obrigações que eu tinha certeza de que não precisavam da minha ajuda, chamava-os de inúteis, só gostava quando me davam presentes, dinheiro, do contrário detestava-os.
Fui perdendo-os um a um, minha avó materna, a Clotildes, ainda dizia que um dia, se eu não mudasse minhas atitudes iria sofrer muito na vida, eu não dava a mínima, meus avôs conversavam pouco, já a minha avó paterna a quem meus pais homenagearam me dando o mesmo nome por ser a mais velha, era bem doce, era sempre muito paciente, ouvia mais que falava, gostava de contemplar as flores, foi dela que ganhei esta gaita, após sua morte sofri muito, comecei a estudar música em uma escola particular, uma das melhores da região na época, paga a muito custo por meu pai, desde então passei a tocar músicas que ela gostava ou que fizessem lembrar-me dela, vovó era muito amável, não tinha ninguém que não gostasse dela, sua simplicidade, alegria, amabilidade cativava a todos, bem diferente de mim, que era sempre chata, exigente e orgulhosa.
Casei com dezessete para dezoito anos, com o Mario meus pais até apoiaram ele era um rapaz muito trabalhador, querido por minha família, vindo de família pobre como a nossa, que embora vivesse praticamente sozinho no mundo não se deixou desanimar, conseguiu construir uma casa linda para mim, não faltava nada, motivo de meu orgulho perante as outras meninas da época (...) mas eu ainda era muito nova, nem tinha terminado o 2º grau, prometi que estudaria e faria uma faculdade, mas como, se o Mario não tinha condições de ir morar comigo na cidade grande, bem distante dali, e o único lugar onde eu poderia realizar o meu sonho de fazer uma faculdade? Eu fazia muito as coisas por impulso, o próprio Mário dissera para esperarmos um pouco mais, contudo, eu não poderia mais esperar, a casa já tava pronta, eu estava ficando maior de idade, o Mario era um rapaz muito dedicado e trabalhador, além de ser um dos mais bonitos da cidade, e ainda por cima eu já estava beirando os 18 anos, deveria me casar logo, uma vez que era costume se casar com 12, 15 anos, e eu, com 18 anos, uma moça linda, inteligente, ainda não ter me casado era uma vergonha, senão para minha família, pelo menos o era para mim.
Após 10 anos de casada meus pais faleceram quase que no mesmo ano, primeiro minha mãe, depois o meu pai, ele não resistiu viver sem ela, meus irmãos que eram poucos já tinha quase todos se casado e ido embora para cidades grandes, ficando apenas o Danilo, a cuidar dele, o tratava muito mal, principalmente após terem sido passados todos os bens da família para o nome dele, visto ser o mais novo entre os homens, e os demais já terem boas condições financeiras. Com a morte dos meus pais minha vida mudou drasticamente, era com minha mãe que eu me abria, tirava minhas dúvidas, ela me ajudava muito, meu pai também era muito bom conselheiro, mas em conseqüência de um derrame já não mais me entendia nem eu entendia a ele. Apesar de amá-los muito nunca os quis, levar para minha casa, cuidar deles, ficando isso a cargo do Danilo, este, interesseiro, que antes que morressem persuadiu nossos pais e
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irmãos, inclusive a mim a transferir os bens da família para seu nome, uma vez que ele cuidaria dos velhos como ele dizia.
Hoje tenho setenta e um anos, o Danilo tem 55, assim como eu, nunca precisou trabalhar, só administrava os bens da família, também nunca se casou, por opção, gostava sempre de farrear, namorar, nunca levou um relacionamento a sério, talvez por medo de encontrar alguém, ambicioso como ele que pudesse querer tomar o que ele tinha tomado dos nossos pais.
Após a morte dos meus pais, vivi ainda com o Mario 25 anos, depois de um tempo ele começou a ter sinais de problemas cardíacos e outras doenças, ele sempre trabalhou muito para me dar tudo que eu quisesse, eu, pelo contrário nunca realizei o sonho dele de ser papai. Sempre perguntavam a ele quando teria um filho, visto naquela época não ter ainda tantos medicamentos que atrasassem uma gravidez, eu sabia de métodos e remédios que impedissem a fecundação e geração de uma vida dentro de mim, eu era muito bonita e sonhava um dia ser modelo, e ter um filho, ainda que fosse o maior sonho do Mario, poderia estragar a minha vida, deixando o meu corpo deformado e feio.
Lembro-me dos bailes que Mario me levava, eu com os vestidos mais lindos, jóias e sandálias de dar inveja nas outras moças, até nas solteiras, meu perfume, ah meu perfume era irresistível, levei até algumas cantadas de rapazes fortes e bonitos, porém eu amava o Mario, o respeitava muito, além de ter esse princípio ensinado por minha avó e por minha mãe, que nunca se deve trair um marido ou desfazer um casamento, ainda mais tendo um marido como o que eu tinha, apesar de ser sempre mulher de muita reclamação, insatisfeita com o tudo que tinha sabia que um marido como o Mario eu nunca mais encontraria, seu amor por mim era algo que eu nunca ouvi falar, nem nas mais belas histórias que eu li nos livros de romances.
Há 18 anos perdi o Mario, o único homem que me amou, os outros, só então eu soube, que me queriam mais, pelo prazer de saírem com uma mulher elegante do que por gostarem de mim, logo, eu era bastante chata, apesar de muito bonita e inteligente, ninguém me suportava, aprendi a ser inteligente, mas não educada com as pessoas, ser culta, mas não delicada e amável.
Quando ele faleceu estava prestes a completarmos 36 anos de casado, eu com 53 anos ele, com 58, muito novo, num certo dia após uma discussão e minhas reclamações, disse a ele que não mais o amava, que, aliás, nunca o tinha amado, chamei-o de burro, imprestável e que ele tinha estragado a minha vida, isso, porque embora não tivesse grávida, me casei com ele sem ser virgem, entreguei-me a ele, e de algum modo ficaram sabendo e me obrigaram a casar com ele, sem contar que eu casei mesmo foi por aqueles motivos que antes eu lhe havia falado.
Mario não suportou tamanha humilhação, morreu de infarto fulminante, só depois me dei conta da burrada que tinha feito, das palavras duras e injustas que tinha falado ao meu marido, tudo que o dissera naquele dia era mentira, eu o amava e sempre o tinha amado, ele foi o meu primeiro e único homem, disse tudo o que ele não queria ouvir e que não era o que eu pensava, mas na minha ingratidão despejava nele todas as minhas podridões, destruí a vida do meu marido, nem tive tempo de pedir-lhe desculpas e declarar-lhe o quanto o amava.
Depois da morte do Mario fiquei numa situação muito complicada, não tinha quem cuidasse de mim, não quis ter nenhum filho para preservar meu corpo sempre novo e bonito, não mais estudei, e nunca cheguei a ser modelo, o filho que eu não quis ter, ou melhor, os que não deixei vingar, pois foram vários que joguei fora, conseqüência das práticas abortivas freqüentes que eu tinha algo que acabou por me deixar também doente, com fortes e freqüentes dores, em todo o corpo, principalmente nas pernas e em meu ventre.
Quando Mario, o grande amor da minha vida, mas ao qual eu nunca chamei carinhosamente com palavras de carinho, e nunca me declarei, já não tínhamos mais nada, eu, já não era mais tão bela, tampouco, nova como antes, deste modo, nem pretendente a namoro ou casamento mais eu tinha. Não
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tinha estudado, não era ninguém, doente, meu corpo que tanto eu venerava e idolatrava, cercando-o de cuidados, estava desfigurado, não despertava mais interesse nos homens, nem de me olhar no espelho eu gostava mais, estava acabada. Arrependo-me tanto do que fiz, tive a chance de ser e fazer alguém feliz e não soube aproveitar, maltratei e descuidei daqueles que mais me amavam e a quem eu dizia que também amava.
Fiquei sozinha, não tinha mais quem cuidasse de mim, apesar de ter mudado muito com a perda de meus pais e marido, ter sofrido e sentido bastante a falta deles, e me tornado mais sensível, as pessoas não me queriam, pois muitas tinham me conhecido durante boa parte da minha vida e sabia do meu histórico, o quanto eu era chata, orgulhosa e exigente.
Depois de algum tempo sozinha, sofrendo e tendo gasto quase todas as minhas economias, meu irmão, o Danilo, me levou para morar na casa dele, acreditei que as coisas, seriam diferentes, que melhorariam, porque agora teria alguém pra cuidar de mim, na época eu tinha 53 anos e ele 37, porém era muito esperto e interesseiro, em questão de tempos, tomou o pouco recurso que me sobrava, além de começar a me maltratar, gastar meu dinheiro com farras e mulheres da rua, e a me deixar sozinha em casa muitas vezes passando, fome, frio, ou estando doente.
Após seis meses sofrendo as piores humilhações, quase ter morrido de fome, tristeza e doença, fui resgatada por esse abrigo, meu irmão foi preso, e condenado passou vários anos na cadeia, acho que uns 10, isso porque na época ainda não tinham leis que protegessem os idosos, mas ele também sofreu muito na cadeia, foi humilhado pelos rapazes mais jovens,apanhou, foi obrigado a trabalhar, algo que nunca tinha feito antes, e em pouco tempo ele deve estar aqui também, pois ninguém ele tem para cuidar dele, os outros irmãos que ainda vivem não querem vê-lo têm muita revolta por tudo o que ele fez eu e nossos pais passarem.
Estou aqui já faz 18 anos, recebi apenas algumas visitas por parte dos meus familiares, meu irmão Danilo, veio aqui arrependido, e hoje, até presta serviços voluntários aqui no Lar do Menino Jesus, está muito diferente do Danilo com o qual convivi boa parte da minha vida, até encontrou uma mulher muito boa e se casou tiveram um filho, hoje meu sobrinho, já tem oito aninhos, é uma criaturinha muito linda, uma graça.
Quando cheguei aqui estava em estado altíssimo de depressão e desnutrição, aos poucos fui me recuperando, e hoje estou bem melhor, é certo que envelheci, mas talvez esteja melhor do que há 18 anos, como paga por minhas atrocidades, vaidade exagerada, desamor, falta de amor e carinho para com meus pais e com o Mario, e a constante prática de abortos com remédios do mato, acabei por ter o meu útero comprometido sendo obrigada a retirá-lo por meio de cirurgia, ainda quando o Mário era vivo, algo que acabou de vez com as esperanças dele ter o tão sonhado filho.
Aqui no abrigo sou bem tratada, as pessoas são super carinhosas, diferente do meu antigo irmão Danilo, mas embora, tenha todos esses cuidados ainda não sou completamente feliz, sinto muita falta dos meus familiares, sobretudo do meu falecido e amado Mario, sinto por não ter hoje um filho pra cuidar de mim e me fazer companhia, choro quase todos os dias, toco minha gaita com saudades daqueles que tive um dia a oportunidade de dar valor, amar e respeitar e não o fiz, choro de remorso, talvez nunca me perdoe pelos erros que cometi, pelo bem que poderia ter feito e não fiz.
..., não chore dona Cecília, com certeza seus parentes e seu Mário lá do céu já te perdoaram, viram que você mudou a vida lhe ensinou tudo o que você precisava aprender.
Minha querida Juliana, não faça o que eu fiz, cuide dos seus pais, ame-os o máximo que você puder, reconheça todo o esforço deles para te dar uma vida melhor, nunca, nunca tenhas medo ou vergonha de declarar o quanto você os ama e o quanto eles são importantes pra você.
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Já era quase meio-dia quando Juliana acabara de ouvir atenciosamente mais uma espetacular história naquele abrigo, mais uma vez, uma história contada e protagonizada por dona Cecília, que até tinha se esquecido que era hora do almoço, Juliana, teve naquele dia mais um grande aprendizado, que com certeza haveria de mudar a sua vida para sempre. Após dar um forte abraço e um gostoso beijo no rosto de dona Cecília e ser retribuído o gesto de carinho, pega sua bicicleta e retorna para casa, com alguns pães de queijo no bolso enquanto devora outros até chegar a casa.
Naquela tarde após ter almoçado um delicioso arroz acompanhado de muita salada, frango frito e suco natural de mangas tiradas a pouco tempo da mangueira que fica nos fundos do quintal, lugar onde Juliana muitas vezes brincou de casinha e de boneca com as coleguinhas e vizinhas.
Apesar de ser bem jovem, e morar a pouco tempo naquela cidadezinha pacata já conquistara vários amiguinhos, muitos desses ainda moram nos mesmos lugares e continuam sendo amigos da menina espoleta.
Ju!!! Vamos à sorveteria hoje a noite na pracinha? Chegou um parque hoje e ficar só até amanhã, dizem que ele é super legal, e vai ser de graça. ... A que horas Mary? Começa as 18 e trinta e fecha às 21 horas...
Tá bem, passa aqui faltando quinze minutos pro início, tenho que resolver algumas coisinhas aqui em casa, ta?
Anrã, xau... ... xau amiga, até mais, não demora vou ficar esperando.
Nesse dia Juliana tinha muita coisa a registrar em seu diário, teria a tarde inteira para relembrar suas aventuras, conversa com dona Cecília no Lar do Menino Jesus, uma vez que havia esquecido seu diário em cima da cama na correria para ver o sol nascendo, algo que nunca tinha acontecido.
Tenho certeza, hoje foi um dos dias em que ouvi uma das histórias mais marcantes em toda minha vida, vou registrá-la em meu diário, pra que nunca me esqueça e sempre que me lembrar de dona Cecília, meus avós e outros velhinhos, ou lá no futuro, quando eu já estiver com noventa anos, possa relembrar essa história e contá-la aos meus netinhos.
Meu querido diário, nesta tarde, tenho muita coisa para escrever, talvez seja a última história que eu vá escrever em você, desde já quero que saiba que gosto muito de você, tu fostes o meu diário preferido em toda a minha vida, lembro-me nostálgica e alegremente do dia em que meu pai me deu você como presente de aniversário de 15 anos, era tão linda a sua capa, o cadeado, as chaves tudo combinando com você, suas páginas então, todas da minha cor preferida, verde-claro, vou ainda ter muitos diários, mas você sempre será o que eu mais gostei, vou guardar-te num lugar especial em meu quarto, para onde for te levarei. Você é o meu melhor amigo do sexo masculino, eu te amo tanto...
Bom, hoje pela manhã saí bem cedo na minha bicicleta...
E assim, Juliana foi escrevendo em seu tão amado diário tudo o que tinha experienciado e ouvido na manhã daquele lindo e inesquecível sábado, talvez o mais lindo de todos os sábados em toda a sua vida.
Quando se deu conta já estava quase na hora de tomar banho e se arrumar para ir ao parque e à sorveteria com sua amiga preferida Mariani, mas, como Juliana é uma menina super dedicada e obstinada no que faz, nunca deixava nada para depois, resolveu que deveria primeiro escrever tudo o que precisava em seu diário que já findavam as últimas páginas, tanto que ela já escrevia com letras cada vez menores e próximas para economizar espaço e não deixar de registrar em seu velho amigo um só detalhe daquele dia.
Embora tivesse ganhado um lindo e bom computador, a menina Juliana como todos a conhecem e que ela gosta de ouvir, nunca abandonava seu diário.
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Hoje aprendi muito com dona Cecília, graças a Deus meus pais me cuidam muito bem, e eu também sou obediente a eles, infelizmente, existem muitos adolescentes e jovens que não dão o devido valor a seus pais, familiares, amigos e outros que lhe são próximos.
...Espero um dia transformar meu diário em um lindo livro, que eles sejam disponibilizados em todas as bibliotecas da minha cidade, ou quem sabe do mundo, para que com ele, outras crianças, meninos e meninas, adolescentes, jovens, não importa a idade, até velhinhos como dona Cecília e meus avós, redescubram o valor das pequenas coisas, da simplicidade e importância de um diário bem como dos nossos avôs e avós, e todas as pessoas
mais velhas. E assim Luciana viajava em seus pensamentos e nas palavras que escrevia no diário sonhando um dia ser uma boa e reconhecida escritora.
Dona Cecília, já debilitada pela idade, porém com uma alegria e disposição para fazer o bem, cuida das outras pessoas, demonstrações de amor e carinho em forma de canções, atitudes, beijos e abraços como nunca fizera em toda a sua vivacidade e beleza juvenil, agora ainda debaixo da goiabeira do lado esquerdo da área de recreação do abrigo, acompanhada pela orquestra de alguns pássaros, refletia sobre todo aquele dia, como Juliana a ouvira com tanta dedicação, respeito e curiosidade.
Que bom foi para mim ter conhecido uma menina tão especial como a Juliana, apesar de não ter filho por puro capricho e vaidade, Deus não me condenou a ser eternamente infeliz, mas me deu de presente uma jóia rara eu não merecia isso, deveria ser castigada por todo mal que fiz e bem que não me omiti a fazer.
Sem dizer nada, essa menina me ensinou o que em toda a minha vida tive a oportunidade e me recusei a aprender, tomara os jovens de hoje se espelhem em meninas, pessoas, seres humanos como ela, valorizando as pessoas em sua dignidade de filhos de Deus, sobretudo as mais velhas e mais próximas, como os pais e avós, que tão carentes ficam a medida que os anos passam.
Preciso de um depoimento em meu diário para fechá-lo com chave de ouro, vou falar com dona Cecília, ela vai escrever algo no meu diário, ela merece, pois a maioria das coisas que escrevi nele teve grande contribuição daquela doce velhinha. Bem que meus pais poderiam trazer ela aqui pra casa, adoraria ter uma avó bem perto, só pra mim.
Dona Cecília! Vovó Cecília!... Juliana o que faz aqui a essa hora? Já deveria estar em casa...
Nada, são só seis e meia, ainda nem escureceu direito, preciso de um pequeno favor da senhora, pode me ajudar? ... Por favor, meu livro não ficará completo sem sua contribuição, sei que a senhora não gosta que saibam das coisas da tua vida, prometo ninguém ficará sabendo, vou até colocar personagens e lugares com nomes fictícios.
Você é mesmo uma menina de ouro Juliana, sua inteligência admirável, na minha infância tive uma coleguinha de aula que surpreendia a todos, pela sua idade e intelectualidade apesar dos tempos em que vivíamos e da realidade de onde éramos provindos. Vou te ajudar, o que eu preciso fazer.
Assim, sem se lembrar do compromisso que fizera de ir ao parque mais tarde com Mary Juliana se pôs esclarecer para aquela velhinha como deveria ser feito o depoimento para seu diário-livro.
Querido leitor, não importa sua idade, se já está velho é porque passou por todas as fazes que antecederam essa idade, se ainda és novo, acredito que ainda chegarás na velhice, portanto, o que aqui foi escrito por essa menina talentosa é minha história que pode ter sido, estar sendo ou ainda vir a ser um exemplo bem parecido com a sua.
Deste modo dona Cecília que nunca tinha contado nada da sua vida a ninguém, naquele momento colocava-a num livro que talvez um dia pudesse se tornar conhecido por milhares de pessoas de diferentes idades e épocas. A princípio ela começou sua escrita receosa, mas como confiava muito naquela menina,
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todo o medo e vergonha se esvaíram de modo que passou a escrever cada vez mais descontraída, relatando ali até mesmo eventos que anteriormente não foram conhecidos por Juliana e que a própria senhora Cecília quase não mais se recordava.
Juliana olhava fascinada para aquela velhinha de corpo franzino a escrever talvez de um modo a contentar-se como nunca ocorrera ao longo dos seus mais de setenta anos de vida com certeza ali Dona Cecília realizara um dos seus grandes sonhos além de revelar o grande talento de escrever, e o melhor escrever para todas as idades, deixando seu nome marcado na história de muitos que viessem a ler aquele diário de Juliana. Dona Cecília estava muito feliz por fazer alguém feliz e mostrar caminhos para se chegar a felicidade tão sonhada por muitos.
Pra terminar agradeço a todos que adquiriram ou leram este livro, foi uma alegria imensa apresentar minha vida a vocês, aqui reaprendi muitas coisas boas que tinha deixado se perder no tempo e encontrei outras que nem imaginava um dia ter. Que este sirva para o aprendizado em sua vida não importa sua idade, condição social... Vale à pena Amar, Ame. Ame, Ame sem receios.
Cecília Carvanét Silvânio Coutner
Muito obrigado por sua colaboração vó Cecília, meu livro vai ficar lindo, quando publicá-lo o primeiro vou te dar de presente, gosto muito de você, tive muita sorte de ter em minha vida uma pessoa tão especial como a senhora, nunca irei te esquecer ainda que eu viva cem anos ou que me vá embora pra longe daqui.
Será se estarei viva minha filha pra ver este teu lindo livro? Também sou muito feliz por ter você em minha vida, depois que você apareceu aqui passei a ter mais amor pela vida, hoje posso sem medo dizer algo que nunca disse com convicção a ninguém, EU TE AMO!
Vixe Vovó Cecília já são oito e meia tenho que ir, minha colega deve estar me esperando há horas, xau. Vai com Deus minha filha, divirta-se muito, juízo... tá até mais...
Pensei que você não viesse mais, sorte que eu peguei dois ingressos, e a fila tá até pequena, a gente vai andar primeiro na roda gigante, kamikaze ou montanha russa?
Prefiro a roda gigante precisamos conversar um pouco Mary... Hoje meu dia foi maravilhoso, aprendi tanta coisa, terminei meu diário, tenho que estar em casa às nove e meia. Eu saí de casa já faz um tempão, minha deve estar preocupada..
Mas enquanto isso vamos nos divertir bastante amiga, Mary obrigada por me esperar, vamos é nossa vez de andar na roda gigante...
Depois de andar na roda gigante bastante tempo e colocarmos as conversas em dia iremos para a agitação do kamikaze e da montanha russa. Você já andou na montanha russa Juliana?
Nem no Kamikaze, eu tô é com medo Mary, a gente não vai cair não né? Não me deixe sozinha amiga, sou muito medrosa com altura e velocidade...
PRONTO ACABOU.
Jonatam Mendes em 25 de abril de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
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